domingo, 8 de janeiro de 2012

Raphael

    No céu escuro, a lua se esforçava para transferir a luz refletida do sol através das nuvens até o solo terreno. Ele não sabia disso, pois estava em seu quarto escuro e com as cortinas pesadas bem fechadas, mas era fácil deduzir a cena que se desenrolava do lado de fora, e garanto, não era só a lua e a nuvem. Desde que o céu escureceu em todo o mundo - naquele dia fatídico, em que desapareceram milhões de pessoas, e até hoje se encontram os corpos delas, em vários cantos, corpos foram retirados de onde estavam e foram parar em locais estranhos - Desde aquele tempo Raphael não tem conseguido dormir corretamente. Os dias são muito frios, abaixo de zero, e pela noite é possível ouvir chiados, o som que sai da garganta daqueles que perderam suas almas para as trevas. O som não é apenas um chiado, é um lamento, um sofrimento, mas tente amparar um deles e você servirá para coisas inimagináveis. Todos que foram raptados nunca retornaram, ninguém sabe o motivo dos raptos.
    Raphael está com gigantescas olheiras, seus olhos vermelhos ardem, não consegue lacrimejar direito, esta sem dormir há dias, nesse ritmo morrerá subitamente.
    De repente estrondo, correria, gritos, e a curiosidade o fez se levantar - Um breve desequilíbrio causado por tontura, de súbito veio, de súbito se foi. - Com cautela ele puxou uma pequena parte da cortina para o lado, então enxergou trechos da sua rua, postes com luzes apagadas, carros abandonados, casas saqueadas, quantas lembranças, agora só via aquelas coisas que deformaram corpos humanos, corpos de antigos conhecidos e amores. Alguns metros à frente ele viu uma família,  mãe, pai e um moleque de três anos. Eles estavam caídos ao chão, apenas o homem, um homem de quarenta anos, debilitado pelo sono, cansado, ele empunhava uma cano de água de pouco mais de um metro. Na ponta do cano havia muito sangue.
    Raphael não sabe como aconteceu, mas houve um lapso, um fechar e abrir de olhos, que não saberia dizer quanto tempo se passou, mas quando seus olhos voltaram a repousar sobre a rua, a família já não estava lá, havia apenas corpos, não mortos, não mastigados ou devorados, eram simplesmente corpos deformados vagando de um lado para o outro, querendo fazer vitimas. Nada fazia sentido, claro, e nunca fará sentido, mas as coisas estavam acontecendo e piorando. Raphael queria sair dali, em sua geladeira pouco alimento, em seu rosto o desespero. Não podia ligar nada, nem um chuveiro, tinha que manter silencio total, do contrario seria notado. Não tinha arma de fogo, não havia esperança, não tinha amados, todos os seus estavam do lado de fora, vagando, sem suas almas, que estavam presas em abismos da consciência inimagináveis e inacessíveis.
    O dia seguinte veio, o sol ultrapassou a grossura da cortina e atingiu Raphael, que estava sentado em sua cama de solteiro, com os olhos mais fundos a cada dia, e o desespero maior a cada segundo. Ele se levantou e como de costume, colocou os fones de ouvido e tentou captar algum sinal de rádio, e como sempre, só estática. Ele então guardou seu aparelho MP3, que em breve estaria sem carga e sem poder ser recarregado. Ainda havia eletricidade, mas só por mais dois dias, nenhum sistema estava sendo monitorado ou regulado. 
    Sono cronico. Raphael se levantou, e caiu no chão logo em seguida, sorte ser dia, as criaturas estavam dormindo. Quando se ergueu, com muita dificuldade, seu lado esquerdo doía como se tivesse sido triturado. Com dificuldade ele andou até o banheiro, foi escorando nas paredes, seus olhos querendo fechar, só conseguiria controlar o sono por mais um dia. No banheiro ele abriu o compartimento do espelho, de lá retirou um frasco de analgésicos, engoliu à seco uns quatro comprimidos. De volta para o quarto, ele desabou na cama. Olhou para o teto, queria que desabasse sobre ele.
     Aquilo estava em seu quarto, andando se arrastando, com passos gosmentos e cópias deturpadas dos nossos passos. Coisa que só aparece de noite e só deveria existir do lado de fora estava em seu quarto, com aquele chiado desesperador, com aquele sorriso que nada tem de engraçado, com aquela aparência de involucro sem espirito. Desesperado Raphael gritou, se levantou ás pressas, mas só para perceber que não havia ninguém em seu quarto, era apenas uma alucinação causada pela falta de sono. Ele voltou à cama, mas não se deitou. Ele estava com os reflexos lentos, se estivesse em melhor condição, perceberia de imediato que aquele grito seria o suficiente para acordar os seres e leva-los até ele. Raphael não dormia para ficar de olhos abertos e por medo de roncar e chamar atenção, mas agora havia gritado. Talvez a falta de sono tenha postergado sua morte, mas será que foi benéfico? Ficar do jeito que ele ficou, à base de 2 litros de café por dia, sofrimento e panico, será isso bom?
    De repente um déjà vu, novamente estardalhaço do lado de fora. Mais cansado que ontem e menos animado também, Raphael se levantou e foi até a janela ver o que se passava. Viu então um grupo de humanos, uns sete. Eram pessoas que portavam armas de fogo, tacos de beisebol, canos de ferro, retirados de tubulações de água, pedaços de madeira, e um homem usava uma espada, igual àquelas dos filmes de ninjas. Na cola deles estavam os seres, coisas que pela narrativa alguém poderia confundir com zumbis, ou vampiros, mas nenhum e nem outro, eram coisas inimagináveis, impossíveis de descrever para quem não as viu. Eram coisas nojentas, que deturparam a vida humana, retirando toda a alma, toda inteligencia, e deixando um maldito chiado grosseiro e uma aparência diabólica aos corpos.
    Tanto alvoroço, logo aquela região estaria cheia dos seres e até uma respiração seria audível para eles, permanecer seria perigoso, pois os seres não trabalham isoladamente, quanto mais deles, maior o poder individual deles também, se um podia ouvir longe, muitos poderiam ouvir mais longe. Raphael arrumou algumas coisas em sua mochila, alimento enlatado, três frutas, duas peras e uma maça, um facão, dois livros e roupas. Às pressas ele correu para a porta, a abriu e correu na direção do grupo, que se assustou com ele. Um dos que estavam lá perto correu em sua direção, e antes que Raphael pudesse dizer algo, ou antes que fosse percebido como humano, ele recebeu um golpe de porrete na cabeça, então escuridão. Ele ainda não estava morto.
    O grupo se foi, e três horas depois ele acordou. Sua cabeça ainda doía muito, e sua visão era turva, demorou para enxergar as coisas em sua volta. Antes mesmo de ver algo, ele estava se esforçando para ficar de pé, e ao conseguir, ainda não enxergava nada. Ele não sabia se deveria seguir ou ficar, nem sabia se era noite ou dia. No passado ele gritaria, hoje não poderia faze-lo, morreria imediatamente. Ele então só podia esperar, e enquanto fazia isso, tentava localizar as ideias, tentava entende-las, o que havia acontecido. Quando conseguiu colocar tudo no lugar, era já tarde. Uma das características dos seres sem alma é destruir a consciência sem que seja percebido o fim. Por isso temem mais a eles que zumbis, pois com zumbis é possível à você gritar, sentir suas mordidas, dá para reagir. Com aquelas coisas era diferente. Se fosse possuído não tinha volta, perderia a consciência e entraria num limbo abissal, viajando por setores da mente que ninguém adentrou, no fim seu ego seria diluído e nada emergiria para retomar seu corpo, nada, a não ser o que está fora da compreensão humana. Foi exatamente isso que ocorreu a Raphael. Quando ele voltou a abrir os olhos, já não estava mais no mundo real, havia caído em estágios cada vez mais profundos da mente, até sua consciência ser diluída e nada sobrar. Ele nem percebeu que perdeu seu corpo para seres que detestava. No fim, Raphael era só mais um corpo ambulante, andando pelas ruas de seu bairro, com olhos completamente brancos, arrastando o corpo e sendo deformado a cada passo, até se tornar aquilo que é impossível de descrever com palavras.

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