Havia acabado de amanhecer, o despertador havia acordado Marcus. Meio sem vontade, ele se levantou, olhou para sua namorada, que dormia a seu lado na cama de casal. Após se levantar ele se espreguiçou, soltou um ligeiro gemido grave, ouviu o estalar dos ossos e foi para o banheiro, enquanto sua namorada se virava para o outro lado. Após lavar o rosto e tomar um banho quase frio, ele se sentiu acordado de fato. Ele retornou nu para o quarto, acendeu a luz sob protestos de juliana, sua namorada, em seguida escolheu sua roupa no armário, acabou vestindo o mesmo de sempre, a calça jeans desbotada e a camisa com uma enorme foto de Johnny cash, do álbum American III. De volta ao banheiro, ele passou gel nos cabelos molhados, os penteou, parecia o Elvis Presley. Retornou ao quarto só para apagar a luz, beijar a testa de sua amada, deseja-la bom sono, pegar uns trocados para passagem e lanche, no cofre.
Como havia saído sem o desjejum, iria toma-lo na rua, em alguma imunda pastelaria chinesa, que cresciam naquela área como se fossem uma colonia de fungos. Enquanto comia algo de nome estranho e sabor absurdamente horrível, e bebia um caldo de cana velho, uma gritaria começou, e junto o som de freadas bruscas, perda de controle de carro. Ele estava curioso para ir ver o que era, mas se fosse, iria perder o desjejum e se atrasar para a faculdade, alias, era o futuro seu e de sua amada. Ele prometeu cuidar dela, dar para ela o que ela merecia, inclusive um futuro melhor. Por vezes ele disse que só cresceria por ela, pois ele mesmo já não aguentava o esforço. Faculdade de manha, trabalho à tarde e cursos aos sábados.
Quando menos notou, estava imerso em vários pensamentos, principalmente em como estava juliana. De brancura de boneca, rosto de anjo, corpo de miss e sedução de meretriz, era acima de tudo isso, a mulher que Marcus amava. Enquanto mastigava o pedaço de massa estranho, ele imaginou ter filhos com a jovem. Eram muitos pensamentos bons, não poderia notar que uma briga estava perto de acabar, perto da pastelaria. De repente, três disparos de arma de fogo, dados praticamente a esmo. Um atingiu o alvo, um senhor de sessenta anos, que por andar lentamente havia feito um jovem policial frear muito em cima e por isso causou o acidente, o que o enfureceu, afinal, o velho dirigia um fusca e não um importado. O segundo tiro atingiu, por incrível que pareça um carro que passava do outro lado, atingiu o pescoço do motorista inocente. O terceiro tiro atingiu a pastelaria, espatifou o vidro que protegia os salgados. Isso fez Marcus voltar a si e se desesperar. Cacos haviam voado em todas as direções, haviam entrado em seus olhos, mas sem causar grandes danos, o maior dano foram os pedaços enormes que atingiram suas mãos, elas começaram a sangrar muito, enquanto isso os olhos doíam, os pedaços de vidro se mexendo dentro dos olhos, machucavam cada vez mais, piscar se tornou insuportável. mas isso acabou logo, pois o motorista que recebeu um tiro no pescoço perdeu o controle do carro e entrou com tudo na lanchonete. Era uma kombi antiga, pesada, que estava há oitenta por hora e atingiu Marcus em cheio, jogando-o bem longe. Quando ele caiu atingiu com violência o chão, mas antes de cair, ele já nada mais tinha visto, tudo virou escuridão.
Durante vários dias, meses, quase um ano, Marcus ficou em coma, desanimando sua amada, que sempre o visitava e deixava-lhe dois presentes, um beijo na testa e uma rosa num copo com água. Nesse período ele só respirou por aparelhos. Os médicos já haviam dito a verdade para a moça e a família, era certo que o rapaz nunca mais voltasse a abrir os olhos, a morte era certa. O neurocirurgião que atendeu Marcus, chegou a dizer que se ele voltasse ao normal, seria com muitas sequelas, tantas que seria como se continuasse em coma. Completou dizendo que se ele voltasse ao normal, ele, o cirurgião, acreditaria em deus. Por mais absurdo que seja, juliana cobrou do médico, que acreditasse em deus, pois antes de completar exatos seis meses, Marcus apresentou sinais de melhoras, não acordou, mas não precisou mais de aparelhos para respirar. Mais três dias e o jovem acordou. De imediato exames neurológicos foram realizados, para espanto da equipe médica, ele não apresentava uma única sequela, para festa de todos. E após 8 meses no hospital, ele pode voltar para casa, ainda sob cuidados, claro. Ah, ele teve sim uma sequela, perdeu a visão do olhos esquerdo, mas não por problemas neurológicos, mas pelos cacos de vidro. O tempo passou rápido e depois de mais alguns meses em fisioterapia, o rapaz pode voltar à normalidade. Haviam até marcado uma cirurgia para seu olho perdido, iriam recupera-lo. O seu mundo havia girado, quase o mandou para fora, mas acabou retornando ao inicio, dando uma nova oportunidade, permitindo tentar mais uma vez. Sua historia virou exemplo na família. O próprio Marcus acabou mudando.
De volta à normalidade, ele retomou a faculdade, eventualmente revia os amigos, alguns nem sabiam do ocorrido. Sempre perguntavam se ele havia tido experiencia de vida após a morte, ele sempre respondia que não, que de nada lembrava, foi tudo completa escuridão. Todos queriam conversar com ele, talvez por pena, por respeito ou admiração, afinal, teve uma recuperação completa, raro nesses acidentes. Mas como o próprio Marcus falava, se aconteceu, não foi milagre, existia possibilidade, pode estar acontecendo com mais alguém.
Após alguns meses na sala de aula, ele notou algo estranho, o professor passava a mesma matéria, ou algo semelhante. Quando Marcus decidiu perguntar, o professor saiu da sala às pressas, Marcus foi atrás, mas quando deu no corredor, não havia ninguém ali, o professor havia desaparecido. Quando voltou a sala, se sentou e conversou com alguns antigos amigos sobre o ocorrido, estranho. Naquele dia outro professor entrou na sala, usava preto, chapéu de Cowboy e um violão nas costas, que nunca usava.
O tempo foi passando, e na faculdade o descontentamento era enorme, os professores haviam estagnado. Mas não era só isso, na televisão as noticias eram as mesmas, repetidas.
Certo dia, enquanto copulava com a amada, ele ouvi-a chorar, mas não parecia ali perto, parecia longe. Ele interrompeu o coito, perguntou se ela estava bem, ela, que estava de quatro, olhou para trás, e respondeu que sim. Marcus tomou um susto, pois naquela escuridão que estava o quarto, juliana pareceu sua mãe, o rosto era idêntico, mas o escuro sempre nos engana. Mas havia algo errado, pois novamente alguém chorou, agora era sua mãe, chorando enquanto Marcus transava com juliana. Ele parou novamente o coito e disse que estava acontecendo algo errado, tinha que ir num neurologista, a moça discordou, mas aceitou acompanha-lo pela manhã. Ele estava tendo alucinações visuais e auditivas, talvez houvesse ficado alguma sequela.
Pela manhã, sem sentir nada estranho, Marcus decidiu adiar a consulta, preferiu ir para a faculdade.
Logo que entrou na sala, reconheceu todos seus colegas lá. Ele se sentou e a aula começou, com o mesmo tema de sempre. No meio da aula Marcus percebeu que todos seus amigos estavam lá, mas não eram para estar, pois eles estavam mais avançados. Quando Marcus resolveu indagar, seu professor de preto entrou na sala, pela primeira vez usou o violão, para cantar "Cry, Cry, Cry" do Johnny cash. Marcus saiu da sala às pressas, pois algo estava muito errado. Quando chegou no corredor da faculdade, ele parecia infinito, para onde olhava ele se estendia até não poder ver mais. O jovem escolheu um lado e saiu correndo. Enquanto o desespero crescia, pois estava obvio que algo estava errado. Na sua mente surgiram vozes familiares, amigos, mãe, pai, namorada. Todos diziam adeus, diziam ama-lo. De repente o som de um estalido, como um beijo e depois uma frase absurda, que não fazia sentido. "Sim, meu filho era doador de Órgãos". Marcus enlouqueceu, o que estava acontecendo? Em seguida mais uma frase marcante, "Tem certeza que o cérebro dele está morto, não tem alguma chance de voltar a viver? Ele não nos ouve? Nada sabe?". Alguém concordou, disse que o cérebro estava morto, ele estava clinicamente morto, só era mantido vivo para serem retirados os órgãos.
Perante o absurdo, Marcus parou, tremia muito, estava bem nervoso. De repente o corredor começou a se desfazer, em ambas as pontas. De ambas as pontas surgia um escuridão impenetrável. Ela se aproximou, atingiu o jovem, que ainda permaneceu consciente, mas nada mais via. Ele estava incerto quanto a tudo aquilo, o que era? De repente invadiu sua mente o som de cânticos cristãos, cânticos de morte. O som de muito choro foi ouvido, um uníssono adeus. Marcus não teve consciência suficiente para ouvir juliana chorar e pedir para ir junto. A moça disse que não aguentaria viver sem o amado, foi comovente, mas Marcus morreu antes disso.
Quando a kombi o atingiu, ele entrou em coma, nunca mais acordou. O que o médico havia dito fora real, ele não precisou acreditar em deus, pois Marcus morreu.
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