"Quantas verdades suportamos antes de descobrir que tudo foi mentira? Quantos tombos aguentamos antes de ficarmos aleijados? Tantas pessoas falam de tantas coisas, de amor, de ódio, de tristeza e felicidade. Mas duvido que alguma delas consiga explicar cada um dos sentimentos que dizem entender. Todo mundo sabe de tudo, menos de como ajudar o próximo" O rapaz falava. Estava deitado em sua cama, num quarto bem iluminado, com a lâmpada do teto, um abajur e duas velas. Ele falava num gravador, queria registrar seus sentimentos. Alguém disse que era bom externar sentimentos, o rapaz só não lembrava quem tinha dito isso para ele. Talvez fosse uma grande besteira, mas com a insônia misturada ao medo de dormir e morrer, não custava tentar seguir conselhos de alguém.
Enquanto ele fazia as gravações, ao som de Johnny Cash, ele não percebeu uma tempestade que chegou rápido destruidora, forte o suficiente para acabar com a energia elétrica do bairro inteiro e outras regiões do seu estado.
"Ah meu deus, agora faltou luz. Trovões invadem cada cômodo da casa. O brilho de vários raios é possível ver. A escuridão é aplacada pelos raios, mas estou com medo. Quer saber, vou vencer esse medo é agora." Ouve-se então uma cacofonia, chiados. Após um tempo retorna o jovem, ele pega o aparelho e continua a gravação. "Vou superar o medo. Apaguei as velas."
O tempo foi passando, num total, nada mais que três minutos, mas para o jovem, um pouco mais que uma hora. O desespero bateu. Ele não sabia onde estavam os fósforos, não estava com o celular perto, e havia esquecido onde tinha deixado os óculos. Estar com miopia avançada no escuro quase total, isso é de enlouquecer mesmo. Como ele dizia, os óculos deixam o escuro mais nítido.
O coração podia ser ouvido, retumbando junto aos trovões. Infarto.
"Ah meu deus, estou morrendo, se alguém ouvir isso, perdoe tudo de ruim que fiz. Amo todos vocês. Eu não quero morrer de infarto". O desespero crescendo, cada batida cardíaca parecia ser mais forte e rápida que a anterior. O peito chegou num ponto crucial, os batimentos mais de duzentos por hora, dor no peito, sensação de desmaio, iria morrer, sabia disso. "Ah meu deus, não quero morrer, me ajude, por favor". Disse o jovem, não para o gravador, mas ele captou a voz, um pouco distante, já que o rapaz deixou o aparelho sobre a cama e ficou sentado, deixando de estar deitado. Ele respirava com dificuldade, era o fim, sabia. Quanto mais media a pulsação, mais ele percebia o fim, já quase não sentia intervalo entre os batimentos. No silencio que era quebrado pelos trovões, passou a ser quebrado também pela respiração muitíssimo ofegante do jovem. De repente cessou, não achava que ia morrer, o coração pareceu quieto e tranquilo, talvez sempre tivesse estado daquele jeito, tranquilo, com batidas regulares. Talvez fosse uma alucinação de pânico, ele não sabia responder, só sabia que estava mais tranquilo agora, não achava mais que morreria. Então se deitou e voltou para o gravador.
"Não morri, talvez tenha sido um ataque de pânico. Estou vivo. A luz ainda continua apagada, a chuva intensa, mas os trovões cessaram. os raios também. Me sinto tão só agora, tão angustiado. Nem sei onde está a vela, fosforo, óculos, celular, nada".
De repente a luz voltou, mas logo cessou, foi bem momentâneo, mas o suficiente para apavorar mais ainda o garoto. Quando a luz deu uma piscada, ameaçando retornar, o jovem viu alguém com o canto do olho direito. Alguém estava de pé, próximo a sua cama, entre ela e a porta de saída. Agora a luz estava novamente apagada, trazendo desespero. Na verdade ele não sabia se tinha alguém, fora uma impressão qualquer, mas forte demais para ele. Desespero, angustia, solidão, síndrome do pânico, medo, fim, sofrimento, morte.
"Ah meu deus, quem está aqui? Por favor, quem está aqui?"
O gravador continuou gravando, estava sobre seu peito. Ele não gravava perfeitamente. De repente uma nova cacofonia, era o gravador caindo para o lado, o rapaz estava se levantando. Suas pernas tremiam, seu coração estava disparado, ele suava, mesmo estando frio. O jovem sentia que ia desmaiar, parecia que iria morrer, era o fim. Ele correu, usou o tato e a memoria, conseguiu achar os fósforos. Então pôs as velas para voltarem a brilhar, com suas chamas consumindo bastante oxigênio, e se estendendo para bem alto, iluminando bem o quarto. O jovem então percebeu que não existia nada lá, apenas ele e a toalha presa na maçaneta da porta, o que pode ter causado uma impressão de silhueta humana.
"Ah, foi só uma toalha. Não era fantasma. Não estou morrendo e nem desesperado mais. Não estou angustiado e nem paranoico".
De repente uma sensação apavorante o atingiu. Ele sentiu como se o mundo a sua volta fosse falso, como se tudo fosse irreal, como se ele próprio fosse uma mentira. Ele sentiu como se seu corpo fosse o de outra pessoa, como se estivesse possuindo alguém. De repente qualquer movimento que fazia, dava-lhe a sensação de estar sendo feito por alguém, e não por ele. Tudo que sentiu pareceu ter sido produzido por alguém, pelo dono do corpo. Ele se sentia um estranho no corpo, como se não fosse dele, e como se o corpo tivesse vários problemas. Agora sim seria o fim.
"Estou vivo, passou, estou melhor. Acho que é ataque de síndrome do pânico. Só pode. Eu sinto dor no peito, coração acelerado, angustia, morte iminente, mas meus exames médicos nunca mostram problemas. Só pode ser pânico, ansiedade, algo assim.". Enquanto falava, a luz voltou. Mas a noite já estava no fim. Aquilo durou algumas horas, mas bem poderia ter sido toda a eternidade. Agora ele conseguiria dormir, com o calor e conforto da luz do sol. Parecia que todos seus problemas se resolveriam quando chegasse o sol. Tudo isso, para que duas noites seguintes, voltasse ao desespero da síndrome do pânico.
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