Fazia pouco tempo que o sol havia aparecido e preenchido o pano de fundo daquela região árida, com algumas elevações rochosas e vegetação rasteira, vegetação que parecia moribunda, perto do fim. O sol fazia jus à região que iluminava, não passava das sete da manhã, mas o sol queimava com mais de 35 graus, estava um inferno. Sob o calor do sol, corria um homem, estava desperto, mas desorientado, e nada tinha haver com os dois dias de viajem exaustiva pelo deserto que corta sua cidade e a cidade destino.
Seu cavalo marrom levantava poeira, mas estava fraco, queria beber água, não aguentava mais a viagem. O cavaleiro parou, saltou do animal, apanhou um cantil, desenroscou a tampa, colocou a mão no queixo do animal e o ergueu, depois virou parte do conteúdo do cantil na goela do cavalo reclamão. O cavaleiro mesmo, nada bebeu, apenas queria seguir viagem. O cavalo estava cansado, mas parar ali, sob aquele sol, era impensável.
Cavaleiro e cavalo seguiam rente à linha do trem, haviam visto dois trens, um no dia anterior, assim que anoiteceu, e um às dez horas da manhã do dia seguinte. Os trens eram de carga. Foi num trem desses, que chegaram seus algozes, transaram com sua mulher e mataram seu filho.
O cavaleiro sabia que estava perto do destino, antes do anoitecer chegaria, iria direto para a casa de seu cunhado, irmão de sua falecida esposa, lá ele permaneceria e montaria a estratégia para destruir quem lhe destruiu.
Antes de tudo acontecer, ele tinha um nome, mas não queria usa-lo, nunca mais. Agora era apenas cavaleiro. Ele ficou de coma, demorou um pouco para se recuperar, os médicos disseram que foi quase um ano, mas ele não ouviu, criou um tempo próprio, para ele, não era quase um ano e sim quase um mês. Falou tanto isso para si, que era no que acreditava. Algo no entanto, não podia ser rejeitado. Ele tinha um projetil alojado perto da fronte. Toda vez que se estressava, ficava com fortes dores de cabeça, ou bastava estar cansado ou com sono. Demorou algum tempo, mas ele conseguiu se acostumar a isso, e até sentia falta quando não estava lá a maldita dor.
Cavalgando rente a linha do trem, por vezes junto a trens. O cavaleiro teve que abandonar os trilhos, pois alguns metros a frente seria a estação, onde desembarcavam produtos e embarcavam outros. Ele não queria ser visto, não queria que soubessem que um forasteiro entrou na cidade. Ele esperaria num canto isolado pelo anoitecer, quando ocorresse, ele iria para a cidade, para a casa do seu cunhado. Ele então se desviou dos trilhos, atravessou uma região com muita vegetação rasteira e se abrigou sob uma enorme rocha inclinada para frente, que o protegia do sol. Ali bebeu o resto do cantil, deu de comer para seu cavalo e para si.
Quando a noite chegou, o cavaleiro tirou de sua sacola de pano um capuz negro, algo como um sobretudo, vestiu-o, em seguida montou no cavalo e cavalgou para dentro da cidade. Galopes rápidos, barulhentos e levantadores de muita terra, invadiram a cidade. Antes que alguém decidisse procurar quem cortava à noite com trotes de cavalo, o cavaleiro já estava na casa de seu cunhado, fora rápido como uma bala. Seu cavalo marrom ficou no celeiro e ele na casa enorme, junto do cunhado. O cunhado explicou que ele não poderia sair de casa de dia, pois ali ninguém aceitava forasteiros, todos que chegavam lá os moradores faziam questão de mandar embora, os que insistem eram tratados como lixo, e muitas vezes se forjavam brigas, para darem motivos a nativos iniciarem um tiroteio com forasteiros e mata-los. Nem é preciso dizer que o cavaleiro ficou com medo, mas a vontade de vingança era muito maior.
Ele descansou aquela noite. Não conseguiu dormir direito por causa dos cachorros. Latidos frequentes na vizinhança
Pela manha seu cunhado conversou com ele, deu para ele dois revolveres prateados e mostrou onde guardava munições e mais armas, era no porão bem escondido da casa.
À noite chegou.
O cavaleiro não precisava lembrar de nomes, roupas e ou títulos, ele sabia bem o rosto dos que destruíram sua família, era só procurar. Então, quando a lua já estava no céu há muito tempo, o cavaleiro foi até o celeiro apanhar seu cavalo e partir.
O capuz sobre a cabeça, dificultando ver seu rosto. As armas escondidas sob o sobretudo com capuz. Alguns galopes rápidos, e ele chegou num local onde havia muita agitação, decidiu ver se encontraria alguém ali. Ele parou o cavalo, saltou dele, o amarrou a uma das pilastras de madeiras do cabaré. O cavalo relinchou, o cavaleiro riu. Ele entrou com violência na porta dupla, de vai e vem. Lá dentro todos o encaravam, estranhamente tinham as mãos perto da cintura, estavam armados, não seria fácil pegar alguém ali. Então o cavaleiro fez a única coisa no velho oeste que acabaria com um mal entendido ali.
— Me dê uma dose de Gim. — disse para o balconista.
Quando o cavaleiro sorveu numa golada só o Gim, a conversa voltou ao cabaré, o ignoraram.
Por todos os lados mulheres dançavam, roupas sensuais. Elas rodavam, alisavam e vez e outra colocavam as mãos dentro das calças de indivíduos mal encarados, nesse momento todos em volta sorriam, depois se formava um circulo em volta, para esconder o que a moça fazia em seguida, com o sortudo. Num canto meio esquecido, um rapaz tocava country no piano, e uma moça gorda acompanhava no violino. Fora a musica local, alguns gemidos femininos vinham do alto. O cavaleiro levantou a cabeça, tomando cuidado para que não vissem sua face, pois a luz em volta e um descuido do capuz, poderia fazer os presente verem sua face. Ele então descobriu que no alto havia um segundo andar, de onde saiam garotas e caras, e onde entravam garotas e caras. Eles transavam.
De repente alguém sentou do lado do cavaleiro. Esse alguém perguntou se ele era forasteiro. O cavaleiro não respondeu, havia sido alertado pelo cunhado, para nada falar e evitar contato com outras pessoas, mas ele não fez a ultima parte, agora fazia à primeira, mas ela só faria sentido com a segunda parte.
O individuo insistiu. Então o cavaleiro inventou. Disse que morava ali há anos, mas há pouco tempo, por causa de um ferimento quando caiu do cavalo, escondia o rosto e sua voz estava diferente. O cara, que já tinha bebido todas, acreditou.
O cavaleiro bebeu mais três doses de gim, antes de ver seu algoz. Ele descia a escada, havia acabado de fazer sexo com uma menina de doze anos, coisa comum naqueles tempos, hoje também. Ele passou pelo bar, pediu uma cerveja, olhou de cima em baixo para o cavaleiro completamente coberto, como se fosse a própria morte, sorriu e perguntou por que escondia a cara.
— A morte não tem face. — respondeu o vingador.
— Meu deus, eu te conheço, nós te matamos seu puto. — disse o homem, quando olhou para dentro do capuz e reconheceu quem estava na sua frente, era o cara que mataram por engano.
Em seguida, num ato impensado, de puro ódio e vingança, o cavaleiro puxou do coldre, que ficava no peito, os revólveres e deu dois tiros no peito do homem, que no passado desgraçou sua família. Algumas meninas correram assustadas com os tiros, a musica cessou e os músicos se abaixaram, mas muitos dos presentes não se intimidaram, sacaram seus revólveres e começaram a disparar em cima do cavaleiro, que conseguiu se esquivar, pulando para dentro do balcão do bar. De dentro do bar ele prosseguiu dando tiros, sua mira espetacular acertava muitos, mesmo quando não olhava. O cavaleiro estava usando o reflexo da luz causado nas garrafas que estavam em prateleiras acima do balcão, assim, olhando para as garrafas acima e à frente de si, ele sabia quem vinha, de onde vinha e como vinha, dai era só erguer os braços em forma de arco e colocar as mãos para trás, sobre o balcão, usando-o como apoio, e disparar, mesmo sem olhar, mesmo de costas.
Quando suas balas acabaram, ele pegou uma espingarda e munições, que estavam penduradas no lado de dentro do balcão. Com espingarda é mais difícil atirar, não podia simplesmente fazer como fazia com os revolveres, então ele se ergueu, mirou, esquivou e matou. Exterminou cinco com a espingarda. Depois largou a arma e fugiu. Por azar, algumas balas haviam saído do limite do cabaré e ido para fora, algumas casas estavam repletas de tiros, a rua continha projeteis e infelizmente, seu cavalo estava quase morto, estava gravemente ferido, não resistiria. O cavaleiro chorou, acariciou a cabeça do cavalo e correu para a casa do cunhado. Ele não sabia, mas ele e o tiroteio entrariam para a historia da cidade, como o dia do cavaleiro fantasma. O barman havia ouvido a estranha conversa, alguém disse ser a face da morte, o outro disse que havia o matado, o cara matou vários dos homens mais violentos e perigosos da cidade numa única noite, ele não sofreu nada, só poderia ser um fantasma.
A vingança começou, muito sangue ainda escorreria, muita morte aconteceria. Não teria fim. Era o velho oeste animado e sangrento.
Nenhum comentário:
Postar um comentário