domingo, 20 de novembro de 2011

O feitiço se vira contra o feiticeiro.


                  Rápido aconteceu, foi até mesmo difícil de entender.
                 O homem que na carteira de identidade carregava o nome de Antônio, mas adotava o pseudônimo de Wargnor, era ligado ao ocultismo, magia negra e bruxaria, ele se considerava uma reencarnação poderosa, de um antigo sacerdote oriental. Esse homem tinha nas mãos um enorme livro, que ele acreditava ser o livro dos mortos, não o necronomicon, pois esse fora criado pelo ilustre lovecraft, Wargnor acreditava ter em mãos o livro real dos mortos, algo que fora esquecido há tanto tempo.
                 Wargnor, o feiticeiro, usava o livro enorme, com 40 centímetros de altura e 105 de largura, ele ficava sentado numa poltrona vermelha, com adereços do século 17, os pés da poltrona eram arqueados para dentro, o local que o feiticeiro ficava era algo que ele chamava de "laboratório", onde ele realizava seus experimentos mágicos. Com as paredes avermelhadas, uma porta grossa, de madeira, com entalhes de símbolos mágicos, o pesado livro sobre as coxas, ele iniciou o "experimento". Invocou alguns seres sobrenaturais, falou línguas mortas, outras que nunca foram usadas oficialmente.  Em seguida fez cortes em seu corpo, que estava despido na parte superior. O sangue saia lentamente, molhando a calça jeans escura e ficando na faca ritualística. Vários cortes foram feitos, todos complexos, ele estava desenhando símbolos antigos no corpo nu, eram triângulos, olhos solitários, letras que mais pareciam um desenho de criança. Depois de ter feito isso, o feiticeiro entrou num estado de meditação profunda, deixou a faca ritualística cair no chão, ficou apenas com o livro aberto em seu colo, o sangue ainda escorrendo de sua barriga e peito, o sangue ia parar nas paginas velhas, amarelas e deterioradas do livro e na sua calça jeans escura.
            Enquanto esperava o contato com os mortos, com alguém muito especial, uma voz soou ao longe, parecia longe e parecia vinda de sua cabeça. A voz dizia : Vens comigo, preciso de você, agora.
             Wargnor não conseguiu se mexer, aquelas palavras pareciam ter sidos ditas por uma voz familiar, mas não gostou do tom, parecia um tom de urgência, e urgência vindo do mundo dos mortos nunca era bom, era sempre um chamado à própria morte. O feiticeiro tentou abrir os olhos, mas algo impedia, era algo como a própria morte, era como se estivesse selado, dali talvez seguisse direto para o caixão e o cortejo fúnebre. Mas não queria morrer, não queria partir, embora mexesse com necromancia, não queria partir, ser um deles, e quando seus olhos não se abriram, ele se sentiu terrivelmente preso em seu cérebro, talvez a vida após a morte não existisse. Talvez fosse a experiência de quem esteve próximo dela, o cérebro produzindo alucinações. Ele não sabia de onde vinha aquele pensamento, mas não era dele, ele tinha total convicção da vida após a morte, o pensamento talvez fosse de algum documentário cientifico, talvez estivesse guardado em sua mente e agora na morte tornou a surgir, para testar sua fé.
              O desespero cresceu, o feiticeiro chegou a ouvir o som do inferno, eram seres desencarnados gritando, desesperados, implorando para estarem vivos novamente, pedindo perdão e socorro. Era o som da Danação, e aquilo angustiou o feiticeiro, que naquele momento só queria voltar para casa, para seu conforto. Após esse período, que pareceu muito extenso, mas nem foi, o feiticeiro acordou, não estava na poltrona estranha, não tinha faca na sua mão, na sua frente estava a poltrona, nas suas costas a porta pesada da saída, e entre ele e a poltrona, estava seu corpo, ele estava mesmo morto, estava caído de cara no chão. Daquele momento em diante só a loucura, a angustia, o desespero e a dor passaram a compor o ambiente do "laboratório". O feiticeiro andava de um lado para o outro, sentia ainda arder o seu peito e barriga, mas já tinha lido sobre isso, era o espirito que ainda guardava lembranças dos últimos momentos de vida. Desesperado, ele começou a tentar realizar rituais de ressuscitação, de possessão, e tudo que pareceria fazê-lo voltar à vida.
              "Porra, cadê o Otávio?" Pensou o feiticeiro, se lembrando de seu irmão. Talvez ainda existisse vida, e se fosse salvo a tempo, talvez voltasse ao corpo, mas Otávio sumira.
               No chão, um duplo de si, com as calças jeans desbotadas, sem camisa, cabelo grande, amarrado num rabo de cabelo. O desespero cresceu, estava morto, sabia disso, estava vendo seu corpo, não queria partir. Agitado, ele correu para o livro necromante, passou os olhos nele, enquanto o segurava nas mãos, mas algo estava errado, havia ainda uma esperança. O livro necromante não exibia os nomes dos mortos, como era de se esperar, mas exibia os rituais. No nosso mundo ele exibiria os rituais, no mundo dos mortos, exibiria os nomes dos mortos, a partir disso o feiticeiro passou a odiar seu irmão, por que ele não aparecia e o tirava daquele limbo? Maldito seja. "Salve-me Otávio". Gritou o feiticeiro, mas ninguém surgiu para ajuda-lo, enquanto isso, seu corpo continuava no chão, sem sinais de que levantaria. Mas a esperança ainda reinava, enquanto o livro não mostrasse o nome dos mortos, ele estaria ainda no limite humano da vida, com chances, agora era esperar um milagre. Talvez fosse ressuscitado por médicos, e quem sabe, não voltaria sem sequelas.
                 De repente um som de estouro, depois outro e outro, em seguida alguém forçou a porta de madeira, com entalhes de feitiçaria. Alguém estava ali, poderia ajuda-lo. Mas quando a porta se abriu, não foi bem o que o feiticeiro esperava ver. Para dentro do "laboratório" entraram homens usando roupas pretas, coletes, rifles poderosos. Eram policiais da tropa de elite. Assim que entraram, puseram logo o rifle na cara do feiticeiro, o assustando e o deixando em estado quase que catatônico. Foi então que as coisas clarearam, foi quando ele percebeu que o corpo no chão não era ele próprio, era antes seu irmão Otávio, que era seu irmão gémeo. As vozes vindas da Danação, eram apenas gritos desesperados do seu irmão, querendo escapar da morte. O feiticeiro havia o matado, num dos ataques de loucura. "Como não notei que a calça dele esta desbotada".

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